Em Natal há um bairro que vive de recordações. É a Ribeira Velha de Guerra, onde a cidade nasceu e cresceu; Ela já teve seus momentos de apogeu, como sede de governo, ruas com as melhores lojas e habitada pela elite social e política, representadas pelas famílias Cicco, Garcia, Lyra, Cascudo, Freire e Barreto, e por onde circulavam os marineres americanos, durante a Segunda Guerra Mundial, quando Natgal se transformou no Trampolim da Vitória. E hoje, como testemunha desse tempo só restam os casarões e as lembranças que fazem a história.
Nas ruas Doutor Barata e das Virgens, Avenidas Duque de Caxias e Tavares de Lira e na Praça Augusto Severo acontecia o "footing" com as mulheres passeando tranqüilas vestindo roupas no estilo melindrosas e calçando sapatos de saltos altos e grossos e meias de seda, enquanto os homens caprichavam com seus melhores ternos, duques ou jaquetões, ou "blazers" de mescla inglesa, cinza chumbo, com calças pretas, com riscas de giz.
E para lembrar os bons tempos, as fotografias no coreto da Praça Augusto Severo, na erma com o Medalhão de Nísia Floresta Brasileira Augusta; sentados em um dos bancos de ferro forjado e pinho-de-Riga; ou ao pé do chafariz com sua graciosa indiazinha apertando a cabeça da serpente, de cuja boca saía um jorro de água
Pelas proximidades do cais do porto, tinha o seu lado boêmio e permissivo, com a popular "zona", que somente brilhava a partir do anoitecer, quando as chamadas mariposas saiam para o basfond, ocupando as ruas 15 de Novembro, Ferreira Chaves, Chile e o famoso e perigoso Beco da Quarentena.
Hoje, quem caminha pelas ruas estreitas e pouco movimentadas não pode ter idéia do que elas representavam nas décadas de trinta e quarenta do século passado. As lojas mais famosas ficavam na rua Doutor Barata, como, Paris em Natal, A Chilenita, Rosa Branca, Armazém Potiguar, A Filha de Natal, Livraria Ismael Pereira, Lojas 4&400 ou Natal Moderna. As avenidas Duque de Caxias e Tavares de Lyra, largas e arborizadas já representavam a nova tendência urbanística da cidade, complementadas pelas praças José da Penha e Augusto Severo. As principais ruas eram cortadas pelas linhas férreas do bonde e do trem.
A pacata Ribeira, cujo nome retrata sua posição de parte da margem direita do rio Potengi, acompanhava o crescimento quase ínfimo de uma cidade chamada Natal, então fundada há 340 anos e que nos 300 primeiros anos era só uma vila. No início do Século XX é que começou a tomar ares de pequena cidade. No início da década de 40, sua população beirava aos 50 mil habitantes. E ai se tornou célebre com a guerra. Os americanos chegaram a Parnamirim e a Ribeira se tornou o ponto de encontro. Além dos soldados, caminharam pelas calçadas do bairro artistas famosos como Humphrey Bogart, Al Johnson, Joe Boca Larga, Nelson Eddy, Martha Ray, Jeanette Mac Donald. Joel MacCrea e até Tyrone Powell. E também persosnalidades políticas internacionais como Madame Chang Kai -Check, e o Rei Faisal, da Arábia Saudita,
O patrimônio arquitetônico da Ribeira é uma lembrança da tendência do início do século passado, com uma marcante influência das linhas inspiradas em Lisboa. Mas nenhum edifício foi projetado por arquitetos famosos ou conta muito a história da cidade. Para quem quer conhecer esse passado, é recomendável uma caminhada pelas ruas do bairro, onde se destacam a bela entrada do Teatro Alberto Maranhão e o antigo Palácio do Governo, que até bem pouco tempo abrigava uma casa de prostituição.
Na ladeira que liga a Ribeira ao centro da cidade, denominada hoje de Avenida Luís da Câmara Cascudo, está um conjunto de belos casarões, onde se destacam os prédios de A Republica, a Casa de Cascudo, o Solar Bela Vista e a antiga Capitania dos Portos, hoje Capitania das Artes. Apesar de abandonado pelo poder público, os dias de glórias da Ribeira ainda estão marcados nos seus prédios. Eis alguns deles, baseado em pesquisa de Fafá Medeiros::
Estação Ferroviária da Silva Jardim, que abrigava os escritórios da Estação de Ferro Central e também servia de estação de passageiros. A presença do presidente da República, Afonso Pena, marcou sua inauguração em junho de 1906.
Capitania dos Portos, hoje abriga a Capitania das Artes, na Avenida Junqueira Aires. O prédio foi construindo no inicio do Século passado e a partir de 1972 e durante mais de 30 anos permaneceu abandonado.
Teatro Alberto Maranhão, antes denominado de Teatro Carlos Gomes, ele começou a ser construído em 1898 e foi inaugurado em 24 de março de 1904. A sua estrutura atual é resultante de uma reforma ocorrida em 1910.
Colégio Salesiano, até 1936 era a residência da família de Juvino Barreto, que a construiu no final do século XIX. Ele fez a doação à ordem religiosa dos Salesianos, que a ocupou somente após sua morte don industrial Juvino e da esposa, Inês.
Grande Hotel, foi a grande referência da hotelaria em Natal. Inaugurado em 18 de maio de 1939 oferecia sessões culturais e musicais para seus hóspedes e convidados. Durante a guerra era o point dos militares e artistas americanos.
Alfândega de Natal, localizado na esplanada Silva Jardim, foi edificado em seis meses, foi inaugurado em 15 de dezembro de 1928, sofrendo uma ligeira reforma, eu não alterou sua estrutura, dez anos depois.
Solar Bela Vista, no limite da Ribeira com a Cidade Alta, é de 1908, edificado pelo Coronel Aureliano Medeiros que mandou trazer da Europa toda a sua ornamentação. Durante muito tempo foi a mansão mais bonita de Natal. Hoje é um centro cultural mantido pela Fiern.
Escola Augusto Severo, prédio construído em 1908 para abrigar um colégio público. Depois foi sede da Faculdade de Direito e posteriormente da Secretaria de Segurança.
Casa de Cascudo, é de 1900, mas a partir de 1910 foi adquirida por Teotônio Freire, sogro do mestre Luiz da Câmara Cascudo. Tem forte influência do neoclássico, no estilo chalé. Atualmente abriga todo o acervo do mestre do folclore