Quem vai ao Recife e tem preferência e compromisso com o turismo cultural não pode deixar de fazer uma visita à Oficina Cerâmica Francisco Brennand, na Várzea. Ela surgiu em 1971, nas ruínas de uma olaria do início do século XX, como materialização de um projeto obstinado e sem trégua do artista Francisco Brennand, que agora é considerado um passeio sagrado, por ser um autêntico santuário artístico do ceramista emanando uma força espiritual de obras profanas ou não.
Aos poucos, o mundo encantado de sonhos e mitos começa a surgir da antiga fábrica de tijolos e telhas herdadas do seu pai, instalada nas terras do engenho Santos Cosme e Damião, no bairro histórico da Várzea, cercada pelo que restou da Mata Atlântica e banhada pelas águas do rio Capibaribe. Neste cenário, a Cerâmica São João tornou-se fonte inspiradora e depositária da história do artista pernambucano.
Para quem chega sem conhecer a obra de Brennand vai se surpreender. Tudo é colossal, a partir da idéia do artista de cujas mãos são esculpidas em barros os mitos e sonhos, onde cada peça cuidadosamente colocada povoa os espaços internos e externos do ambiente.
Criar é um verbo permanentemente declinado por Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand em sua oficina diária de 35 anos de trabalho intenso e obsessivo. Se transformou num lugar único no mundo onde prevalece um conjunto arquitetônico monumental de grande originalidade, em constante processo de mutação, onde a obra se associa à arquitetura para dá forma a um universo abissal, dionisíaco, subterrâneo, obscuro, sexual e religioso.
A presença do artista num trabalho contínuo de criação confere à Oficina um caráter inusitado, identificando-a como instituição intrinsecamente viva e com uma dinâmica que torna imprevisíveis os rumos da arquitetura e da obra,
O escritor e arquiteto Fernando de Barros Borba define as características da arte brennandiana como poucos o fizeram.
"Todo esse mundo se apresenta, mais que tudo, com as invenções de Borges e Octávio Paz, em timbre nordestino. Os espaços sinfônicos, o Taj Mahal no jardim, um forno antigo atapetado de lâminas e rituais, jarras em penumbra, sentinelas como peças de xadrez, pilares espetando o vazio, monstros e arcadas trazem-nos o gabinete mágico de Don Illan de Toledo, utopias de Tlone de Uqbar, uma cidade devastada da Índia, um campo ensolarado com pirâmides huastecas. É o romanceiro épico de Brennand. Suas novelas, seus contos breves, quem sabe, curtos poemas, são nesses bicos brilhantes de tucanos, de gaviões, de urubus, os fálicos fustes coroados por claras e túmidas glandes, pernas de absurdas mulheres, peixes levantando dolorosamente a boca, frades enfileirados, sapos, tartarugas, nádegas com cabeças e lagarto (ou serão bem-te-vis?), cruzes, marcos heráldicos, totens cegos com peitos, ovos de onde rompem cobras e, de repente, a mesa profusamente posta com um banquete de fantasmagorias. Mas para que descrever? Palavra alguma pode dizer a arte de Brennand. A literatura é inútil. Eles escreve com a cerâmica"
A mais nova do espaço e do mundo de Brennand é a capela do conjunto, com área de 400 metros quadrados e capacidade para cem pessoas. Além do simbolismo religioso tem uma importância familiar, pois é um resgate da promessa que o pai dele fez à mãe, Maria da Conceição, que desejava uma capela no Engenho São João.
Entre as peças de Brennand confeccionadas para a capela estão a imagem da santa Nossa Senhora da Conceição, esculpida em cerâmica que recebeu tratamento opaco. A construção aproveitou parte das ruínas de uma edificação do século 18, que já abrigou escola, refeitório e até cinema para os operários. Brennand assina ainda outras peças, entre elas os 12 apóstolos, castiçais, a mesa do altar, a cruz da entrada e um mural com evangelistas.
A capela metaforiza um pouco a visão do artista do "céu", enquanto o templo, a do "inferno". O Templo do Sacrifício é uma denúncia dolorosa da mantança às antigas civilizações latino-americanas por europeus. Imponente como costumam ser suas criações, mas muito mais dura, a construção de Brennand, entre outras coisas, é composta por 36 esculturas de sacrificados anônimos, além de duas imagens aprisionadas por grades: a do imperador asteca Montezuma II e a de Atahualpa, monarca inca.
Oficina Cerâmica Francisco Brennand - Propriedade Santos Cosme e Damião, s/nº, Várzea. De seg. a sex., das 8h às 17h. Fone: 3271-2466
(Texto baseado em material fornecido pela Oficina Brennand e em entre vista do artista Francisco Brennad ao Jornal do Commércio de Recife)
(*) Hélio Cavalcanti viajou a convite da Secretaria de Turismo do Recife